As joias de Fernando da Gata

“Chico Pescador estava enfadado. Havia mais de quatro horas que estava ali sentado na beira do barranco olhando para as águas barrentas do Rio Sapucaí esperando sentir o puxão de um peixe graúdo. Fazia isso três a quatro vezes por semana e sempre levava uma fieira de peixes para casa. Hoje, no entanto, tudo que fazia era dar banho na minhoca. Nem um chorãozinho beliscou seu anzol. Amava a vida de pescador. Nem fazia tanta questão de encher o samburá. O melhor da pescaria era ficar ali no barranco do rio, na sombra de um ingazeiro contemplando as águas que passavam lentamente diante dos seus olhos. Viajava naquelas águas sujas e serenas do rio. Às vezes chegava a cochilar, até ser despertado pelo puxão de um sorumbático mandi ou mesmo de um esperto dourado esfomeado que desfilava quase à flor d’água por aquele trecho. Sentir a força do peixe puxando a linha para o fundo do rio ou escrevendo em ziguezague para longe da margem dava uma inigualável sensação de força, de poder, de domínio. Lembrava da esposa, que sempre falava mais alto em casa. Ali, independentemente do tamanho e da força do peixe, era ele quem mandava! Além do mais, o silencio da beira do rio, cortado apenas pelo cantar dos pintassilgos, bem-te-vis e sabiás, ou uma ou outra saracura que desfilava esbelta e elegante por ali caçando insetos, aquele barranco de beira de rio era um paraíso. Mas se não levasse peixe para casa teria que ouvir a cantilena da esposa.
– Tem certeza de que você foi mesmo pescar? – seria a menor das reprimendas que receberia da esposa. Sim. Precisava levar ao menos uma piranha para casa… para servir de álibi para a pescaria.
Mas aquela manhã estava difícil. Já trocara a minhoca pela pelo angu de fubá, pelas aleluias, trocara de vara, de anzol, e nada de um peixinho qualquer morder a isca. Será que estavam fazendo greve de fome? Será que estavam de férias? Ou era um simples boicote ao pescador? Fosse o que fosse, hoje teria que voltar de mãos abanando para casa. Teria que enfrentar aquele olhar desconfiado da esposa duvidando que ele havia ido pescar.
Jogou o resto de isca na água. Recolheu as varas. Juntou as tralhas e tomou a trilha batida de volta para casa. Mal deu os primeiros passos uma das varas enroscou numa galhada do ingazeiro. Ao olhar para cima para desengastalhar a vara de pesca, se deparou com uma sacolinha de plástico pendurada no alto do galho.
– “Uai! Como isso veio parar aqui nessa altura? A enchente das goiabas não foi tão alta este ano”! – pensou.
Cutucou a sacolinha com a vara de pesca. De repente uma chuva de brincos, correntes, pulseiras douradas despencaram sobre sua cabeça. Uma chuva de jóias! Refeito do susto, da surpresa, Chico Pescador coçou a cabeça por baixo do chapéu, juntou ‘tico & teco’ e se pôs a pensar.
– Joias não dão em árvore! Alguém colocou aqui. Isso deve ser coisa roubada!
Por um breve momento pensou em transformar aquelas joias em dim-dim. Melhorar a vida. Reformar a casa. Comprar uma bicicleta ou uma tv nova. Afinal, ‘achado não é roubado’!
Entretanto, junto com o pensamento de cobiça, veio o pensamento de sensatez! “Ingazeiro na beira do Rio Sapucaí não é cofre! Essas joias foram escondidas ou deixadas aqui por algum motivo. Elas pertencem a alguém… e esse alguém não sou eu”! – refletiu o velho pescador.
Duas horas depois o Delegado José Eustaquio Nicolau de Lima, titular da Comarca de Santa Rita do Sapucaí, entrou no gabinete do Delegado Regional Abel Lobo Cordeiro em Pouso Alegre. Trazia com ele Chico Pescador e as joias pescadas na beira do Rio Sapucaí no bairro Pouso do Campo. Não foi difícil para a polícia concluir que o saco de joias pescadas na beira do rio, há poucos metros do local onde o famigerado bandido Fernando da Gata recebera um tiro no peito três meses antes, eram as mesmas roubadas por ele.As joias roubadas das residências dos quatro empresários em Pouso Alegre em meados de agosto, finalmente voltaram para as mãos de seus donos. Dizem as más línguas que teve vítima que recebeu até mais do que lhe fora roubado!
E o Chico Pescador?
Bem, o pescador de barranco que desistiu de pescar dourado para pescar joias no ingazeiro na beira do Rio Sapucaí, naturalmente recebeu uma ‘brilhante’ gorjeta!”

Airton Chips

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