Duas mil peças de origamis feitas por custodiados abrem exposição Vidas Interrompidas no Museu Mineiro

Produzida por 40 detentos do Ceresp, mostra retrata por meio de origamis as tragédias de Mariana e Brumadinho

Três obras representando a vida, a morte e o renascimento, todas feitas com origamis – a secular arte japonesa de dobrar papel – abriram a exposição Vidas Interrompidas no Museu Mineiro da capital, na manhã deste sábado (10/8). A mostra foi preparada ao longo de cinco meses por 40 custodiados do Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) de Betim, para homenagear por meio da arte as vítimas dos rompimentos das barragens da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, e do Fundão, em Mariana. Ao todo, mais de dois mil origamis foram produzidos para compor as peças.

No Museu Mineiro, que faz parte do Circuito Liberdade – onde estão 15 instituições, dentre museus, centros de cultura e de formação –, o público pode apreciar a mistura do secular, que está representado pela cultura japonesa por meio dos origamis, e do moderno, por meio de projeções virtuais de fotografias e do próprio Rio Paraopeba, atingido pela lama. O objetivo é trazer para o visitante a perspectiva do recomeço, em um movimento de luta por paz e longevidade, símbolo do origami.

Preso há cerca de um ano, Warley Durval, 19 anos, teve autorização judicial para estar presente na abertura da mostra e contava aos visitantes, orgulhoso, o significado de cada uma das obras. “O projeto Mãos pela Paz mudou a minha vida. Me tirou do pavilhão e me levou para o ateliê. Descobri o que realmente é importante na vida através da arte da dobradura. Pegamos um pedaço de papel e damos a ele vida. Diferente do que muitos falam, o sistema prisional não é uma escola do crime. Foi dentro do Ceresp que aprendi a valorizar o que realmente é importante”.

Enquanto os dois internos – Lucas e Warley – que participaram da confecção das obras explicavam aos visitantes o significado de cada uma das peças, a idealizadora e mentora do projeto percorria a galeria orgulhosa por ver o sonho de um projeto nascido dentro do ambiente prisional exposto em uma importante galeria de arte da capital mineira.

Foto: Divulgação/Sejusp

“É inexplicável a sensação de poder mostrar para a sociedade que quem está preso também é sensível à dor do outro. Eles, que também tiveram, de certa forma, suas vidas interrompidas pelo erro que cometeram, se uniram para pensar em uma homenagem à todas as pessoas que perderam as suas vidas nas tragédias de Mariana e Brumadinho. Hoje tenho a certeza de que a reinserção por meio da arte vale a pena”, disse emocionada Rosemary Ramos, pedagoga do Ceresp Betim e fundadora do Mãos pela Paz – o projeto de ressocialização por meio da confecção de origamis.

Entre todos os visitantes que estiveram no Museu Mineiro na manhã deste sábado, uma se destacava pela emoção. Wildimara é mãe do Lucas Brendom, de 21 anos, que é um dos internos responsáveis pela confecção de todas as peças. “Chega a doer o meu coração. Não sabia que o meu filho era capaz de fazer um trabalho tão delicado. Sinto que meu filho está mais calmo, feliz e sábio. Tenho certeza que é resultado dessa oportunidade de participar deste projeto. Estou muito orgulhosa dele. Pra quem não sabia fazer um aviãozinho de papel e hoje ter seu trabalho exposto em um museu, é muito gratificante”.

A exposição Vidas Interrompidas conta também com fotografias de Bárbara Ferreira e fica em cartaz até o dia 29 de setembro. A mostra é uma realização da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública e da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo, por meio da Diretoria de Museus.

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