Palavras francas, sessões ordinárias

 Jonas Costa*

“Os representantes, quase todos de pé, mas dominados e mudos, ouviam a palavra franca, vingadora e formidável do tribuno negro. Não era já um homem, era um princípio que falava… Digo mal: não era um princípio, era uma paixão absoluta, era a paixão da igualdade que rugia!” Lúcio de Mendonça assim descreveu a performance retórica do abolicionista Luiz Gama durante uma assembleia do Partido Republicano Paulista, em 1873. Na ocasião, Gama participava de um acalorado debate sobre a escravidão. Quase 140 anos depois, no “calor” improvável de um monólogo prosaico a respeito de obras terceirizadas na área de saneamento, o vereador Clarismon Inácio (Bodinho) classificou como “papel de preto” os serviços executados por operários de uma empreiteira em vias públicas santa-ritenses. A declaração preconceituosa – para dizer o mínimo – foi proferida na última terça-feira (28), ao final da mais recente sessão ordinária da Câmara Municipal, na fase conhecida como “palavra franca”. É nessa parte da reunião que o presidente da Câmara franqueia os microfones a seus pares para que estes abordem os temas que lhes parecem convenientes. Ao contrário de Luiz Gama, a fala de Bodinho descortinou sua falta de paixão pela igualdade – a palavra, todavia, foi igualmente franca. Franqueza revoltante, pois colocou um legislador em colisão com a legislação. Franqueza constrangedora, porque impeliu o presidente municipal do PSDB, Ronaldo Carvalho, a apagar o incêndio verbal de seu correligionário. Justamente Ronaldo, o ex-prefeito que urbanizou a Rua Nova e sempre prestigia as solenidades do 13 de maio; o ex-deputado federal que assinou a primeira Constituição brasileira a qualificar o racismo como crime inafiançável e imprescritível. Não vejo ironia nessa situação paradoxal, apenas tristeza: a facção política liderada por Ronaldo merecia um representante mais identificado com a igualdade racial no Poder Legislativo Municipal. Dois dias após a declaração racista, Bodinho divulgou uma “nota de esclarecimento”, na qual argumenta que pronunciara aquelas “infelizes palavras” porque estava “movido por intensa emoção”. Emocionou-se ao discursar sobre tubulações de esgoto? Se estava indignado, não precisava ter sido indigno. Emoção e indignação foi o que a fala do vereador produziu ao chegar aos ouvidos da presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santa Rita, Rosângela Lopes. Em notícia publicada no site da Força Sindical, a líder operária negra admitiu que sua primeira reação foi o choro. “Em 56 anos, eu nunca ouvi algo tão preconceituoso quanto o que esse vereador disse”, declarou Rosângela. Alguns ou talvez muitos santa-ritenses podem ter interpretado a expressão “papel de preto” como pequeno deslize, força de expressão, fato isolado. O vereador anunciou que subirá à tribuna da Câmara em breve para se explicar. Nesse caso, será inútil tentar encobrir palavras repugnantes com outras previamente escolhidas. Entretanto, nasce uma nova oportunidade para Câmara e Prefeitura fazerem sua parte na reparação das atrocidades cometidas contra os negros durante e após a escravidão. Prefeitura e Câmara já desperdiçaram uma chance na atual gestão: em fevereiro de 2009, sete dos nove vereadores valeram-se do voto secreto para aceitar o veto do prefeito Paulinho da Cirvale ao projeto de lei que instituiria o Dia Municipal da Consciência Negra. A proposta havia sido aprovada pelo plenário no final da legislatura anterior, mas acabou arquivada em função da pressão de poderosas instituições e empresas da cidade. Magno Magalhães foi o único dos atuais vereadores a expor publicamente sua posição favorável à data comemorativa; o autor do segundo voto permanece desconhecido. Antes de se tornar palco dos episódios lamentáveis de 2009 e 2011, a Câmara havia ignorado a questão racial por um período de ao menos cinco anos. Foi o que o professor José Cláudio Pereira descobriu em 2006, ao realizar um estudo acerca da discussão de políticas públicas pelo Legislativo Municipal no intervalo de 1999 a 2003: “Não houve uma indicação, sequer, sobre negro, raça, etnia nem minorias diversas (…). Em Santa Rita do Sapucaí, não há dados disponíveis sobre a desigualdade racial do município, mas foi apresentado um documento, na Câmara dos Vereadores, relatando a ‘difícil situação do negro na cidade’. Constatou-se que o debate sobre a desigualdade ainda não é praticado no nível municipal.” Nos últimos três anos, Prefeitura e Câmara nem mesmo enviaram representantes à sessão cívica do 13 de maio promovida pela Associação Santarritense José do Patrocínio, uma das comemorações mais tradicionais do município. O Poder Executivo limita-se a destinar mísera subvenção anual à associação, cuja sede social está de portas cerradas desde 2004, desabando a conta-gotas. Os dirigentes municipais têm uma dívida moral a honrar com os afrodescendentes, que segundo o Censo de 2010 somam 27,8% da população santa-ritense. É evidente que a porcentagem oficial está aquém da real. Algo inibe os negros da cidade a se assumirem como tais e a ascenderem socialmente. Quantas empresas e instituições de ensino são dirigidas por negros em Santa Rita? A asneira franca de Bodinho lança luz sobre questões que a Câmara Municipal deve discutir com a sociedade que a elegeu. Sociedade em que negros e brancos têm o mesmo papel de cidadãos e merecem idêntico respeito.

 

*Jonas Costa, jornalista e servidor público, é autor de “A rainha operária e sua colmeia negra”, livro-reportagem que narra a trajetória da comunidade negra de Santa Rita do Sapucaí

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8 Responses to Palavras francas, sessões ordinárias

  1. Avatar de qQUO VADIS? qQUO VADIS? disse:

    A expressão usada pelo Digníssimo vereador Clarismon Inácio(bodinho), “papel de preto”, não deveria estarrecer ninguém. Na verdade, nada mais é que a expressão exata da representação dos seus fiéis eleitores que naquela casa o colocaram como seu representante Esperem mais um ano e meio e procurem votar com mais consciência. Até lá aguentem!!!!!!!!!!!!!!!
    .”Cada povo tem o governo que merece.”

  2. Lamentável as palavras desse vereador. Alegar que agiu por emoção é apenas uma desculpa, pois se falou é porque tem o preconceito internalizado. É visível e comprovado que maior parte da população tem sangue negro devido a miscigenação, mesmo que esses reneguem essa realidade. os negros tem conseguido grandes feitos , assim como os brancos.Somos todos iguais, a cor da pele não faz uma pessoa melhor ou pior. Há bandidos de todas etnias e certamente é melhor ser negro e honesto do que ser como esse tal de Bodinho vendido, hipócrita, falso e outros adjetivos que não convém dizer para não se rebaixar ao mesmo nível. é melhor que ele fique bem esperto com as palavras pois racismo é crime e ele ainda pode se dar muito mal.Pobre dos negros que votaram nele acreditando ser uma boa pessoa, na hora de pedir voto é uma maravilha e certamnet muitos negros contribuiram na sua eleição como vereador. Bodinho…O mundo é uma roda gigante e com certeza você será punido, não pelo homem, mas por Deus.Não adianta tentar se retratar , depois de uma palavra proferida, pense antes de falar e agir para não engolir o próprio veneno.

  3. Avatar de sonhador sonhador disse:

    Olha, infelizmente à política Santarritense anda na UTI há alguns anos, pois entra prefeito sai prefeito, entra vereador sai vereador e continuamos a comportarmo-nos como bobos da corte. Nossa cidade tem um povo bom, trabalhador, praticamente não existe desemprego aqui, mas convenhamos, com nossos atuais administradores municipais, tanto o prefeito quanto vereadores, estão muito abaixo da crítica. Estão prestes a terminar seus mandatos de maneira sofrível, sem graça, sem moral para ser mais claro!!!. Jonas, você neste belo texto, você não comentou o episódio entre seu “Pedro Norberto e o Prefeito”, pois o que aconteceu foi uma palhaçada que ambos fizeram…falou muito, gritou muito o seu Pedro Norberto, mas retirou à denúncia, porquê? E parece, segundo o povão, que teve participação de outros 02 vereadores!!!
    Não somos bobos, não queiram pensar que todos os Santarritenses são idiotas…o que estamos cansados é de políticos brincando com nossa cara!! Todos os vereadores atuais, são omissos, coniventes, pois querendo ou não, todos, tem parentes na prefeitura….e aí…bem, não vamos esticar a conversa!!!!! O que precisamos é sermos mais inteligentes na próxima eleição, e não votar nestes caras de novo!!! Pelo amor de Deus!!!

  4. Avatar de Francamente Francamente disse:

    Sinceramente… Quando o Lula disse que “a crise é coisa de loiro de olhos azuis” ninguém chiou.
    Quem é mais velho sabe que o termo usado pelo vereador era, infelizmente, normal há algum tempo, mas foi sendo, felizmente, riscado do vocabulário aos poucos. Ele deixou escapar e pediu desculpas. Racismo verdadeiro é ficar tocando fogo na situação, falando que tal ex alguma coisa urbanizou uma rua em particular… Qual a importância disso? É uma rua só de negros? Se sim, é racismo; Se não, é irrelevante.
    Os negros foram escravos 450 anos? Os judeus foram escravos 400 anos no Egito e perderam tudo por diversas vezes em cada guerra ou expulsão de um território, como na Espanha.
    Tudo bem que os negros ajudaram a construir o Brasil, e isso é inegável, e merecem consideração, pois foram “libertados” sem nenhuma condição, como li em outro blog, mas e os alemães, japoneses e principalmente italianos? Teríamos um dia para a consciência deles também?
    Outra coisa que achei interessante foi sobre “uma das comemorações mais tradicionais do município”… Poderia me dizer quantas pessoas participaram da última? Por acaso teve representante na festa da APAE? Essa sim é tradicional. Quanto à verba anual… Dá uma pesquisada sobre a vergonhosa verba para a Sociedade Protetora Dos Animais.
    Sem palavras para o comentário sobre a falta de negros na direção das instituições… Quantos idosos ou deficientes têm esse cargo?
    Por fim, se existe uma “dívida moral” com 27,8%, como ficam os outros 72,2% ? Eles não têm direito a uma cota dessa dívida e nem que alguém escreva um livro ou matéria sobre eles?
    Houve sim um erro muito grande por parte de nosso representante, mas não maior que o de nosso ex representante maior.

    “Que atire a primeira pedra quem nunca errou”.

  5. Avatar de J. Povo J. Povo disse:

    A partir do momento em que se usa a raça (ou a cor da pele) como critério de seleção, se está tendo uma atitude racista.

    Ficar criando cotas baseadas em raça é racismo. São cotas em faculdades, concursos públicos (pasmem, no RJ existe isso!), etc. Daqui a pouco vão criar cotas até em transporte público, restaurantes, etc.

    Ao invés de acabarem com a desigualdade estão é incentivando mais ela.

  6. Avatar de Eloísio Rosa Ramos Eloísio Rosa Ramos disse:

    Para o” Francamente disse e o J. Povo” : não sabem nada do passado e presente da comunidade negra nessa cidade onde se cometeu barbaridades contra os negros inclusive estes cometidos por vocês racistas velados. Ao meu amigo Jonas, agradecimentos.

    • Avatar de Francamente Francamente disse:

      Não sei onde você viu racismo nos dois comentários, a não ser que, hoje em dia, a verdade seja considerada racista também. Mas gostaria de me tornar uma pessoa mais culta, então peço sua ajuda, me contando somente 2 barbaridades do presente e 2 do passado, cometidas nessa cidade contra a comunidade negra. Você alega serem tantas, que tenho certeza que serão várias as apresentadas.

  7. Avatar de Milton Milton disse:

    Este comentário mostra o despreparo de um edil (ota)

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