Entrevista – Rita Elisa Seda

Ao adentrar nos caminhos da vida e da obra de Cora Coralina, encontrei mais do que esperava


Wilson Muller/Divulgação Jornal Estado de Minas


Mineira de Santa Rita do Sapucaí, no Sul do estado, a escritora Rita Elisa Seda conta que começou a se interessar pela poesia de Cora Coralina em 1984, quando leu uma entrevista na Família Cristã. Desde então não deixou mais de admirá-la e estudá-la. Tanto que acaba de publicar, em parceria com o sociólogo – e também apaixonado por Cora – Clóvis Carvalho Britto, o livro Cora Coralina – Raízes de Aninha, pela Editora Ideias & Letras, a mais completa biografia escrita sobre a autora de Becos de Goiás e estórias mais. “Não há como estipular que essa ou aquela obra de Cora Coralina é a melhor. Todas são ótimas em sua ótica literária. Entre os legados que ela nos deixou está a determinação em ser escritora, acreditar no eu poético e fazer inovações sem medo de errar”, disse Rita Elisa Seda, em entrevista a Carlos Herculano Lopes.

Como foi escrever a quatro mãos um livro sobre Cora Coralina?


Foi ótimo escrever esse livro junto com Clóvis Carvalho Britto. Ele conhece bem o acervo do Museu da Casa de Cora Coralina, na Cidade de Goiás, fez a triagem dos documentos mais importantes desse acervo para nossa pesquisa. Ativou sua busca de inéditos em acervos de museus, cartórios, diocese e Gabinete Literário da cidade de Goiás, Goiânia e Brasília. Escreveu a primeira parte do livro. Eu fiquei com a pesquisa a respeito da vida de Cora Coralina no estado de São Paulo, visitando as cidades onde ela morou, passeou ou recebeu homenagens. Escrevi a segunda parte do livro. Na terceira dividimos tarefas. Como eu tinha mais tempo para locomoção, intensifiquei as entrevistas com familiares, amigos e conhecidos, viajei para diversas cidades: Jaboticabal, Penápolis, Andradina, Franca, Sales de Oliveira, Camboriú e São Paulo, coletando documentos e registrando depoimentos. Depois fui para a cidade de Goiás e Goiânia. O livro vem ilustrado com muitas fotografias, a maioria foi cedida por fotógrafos goianos, pelo Museu da Casa de Cora Coralina, pela família Brêtas, por amigos de Cora e instituições particulares.

Como foi que começou seu interesse pela obra da escritora?


Foi em 1984, quando li uma entrevista dela publicada na revista Família Cristã. Nessa época eu morava em Santa Rita do Sapucaí, Sul de Minas Gerais, e fiquei encantada com a humildade inerente à poeta. Continuei pesquisando a vida e obra de Cora Coralina até que, em 2001, fui morar na cidade de Goiás, onde permaneci por seis anos. Foi um aprendizado, pois ler os poemas coralineanos sempre foi primordial em minha vida. Também fiz várias exposições fotográficas onde havia junção de fragmentos poéticos com fotografia e sempre com alguma menção a Cora Coralina.

Muitas surpresas no decorrer das pesquisas?


No primeiro momento nossa meta era procurar e encontrar respostas para nossas indagações: Por que Aninha se sentia tão rejeitada pela família? Por que ela estudou poucos anos na escola da Mestra Silvina? Onde era a Fazenda Paraíso? Onde estão enterrados grandes ícones da poesia coralineana, como Mãe Yayá, Mãe Didi? Quando foi a primeira publicação de um texto de Cora Coralina? Ela e Cantídio se casaram no estado de São Paulo? Quando? Cantídio a impedia de escrever? Ela realmente escreveu para a Revista do Brasil a convite de Monteiro Lobato? Drummond conheceu Cora Coralina pessoalmente? Listamos tantas questões e, no percurso da pesquisa, encontramos as respostas e mais algumas indagações. Encontrei documentos importantíssimos, que depois foram usados para atualizar a história municipal em Jaboticabal, Penápolis e Andradina. Assim como Clóvis encontrou no Gabinete Literário de Goiás as publicações das crônicas de Cora Coralina nos jornais O Goyaz e O Paiz, as quais não eram conhecidas.

Quais os principais aspectos que vocês procuraram abordar em relação à obra de Cora Coralina?


A máscara lírica Aninha é um dos pontos fortes de Cora Coralina. Desde o primeiro livro, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, ela se colocou como a “Menina feia da Ponte da Lapa”, no livro Vintém de cobre ela nos alertou com um subtítulo: Meias confissões de Aninha. Abordar Aninha foi ótimo. Dentro desse contexto ela nos mostrou uma infância sofrida, como no castigo que lhe foi imposto de usar no pescoço, por tempo indeterminado, um caco de louça azul pombinho, sendo esse um dos pontos de nossa pesquisa. Clóvis descobriu em publicações na cidade de Goiás documentos que comprovam a veracidade da história de Dona Jesuína, citada no poema ‘‘O prato azul pombinho’’. Assim como outras relevantes histórias ocorridas nas cidades de Goiás, Jaboticabal, Penápolis, São Paulo e Andradina que estão contidas em seus livros. A presença da Coralina religiosa também foi um amálgama que fortaleceu essa biografia. Encontramos a irmã Conceição, nome que ela recebeu ao entrar para a Venerável Ordem Terceira da Penitência Franciscana.

Você acha que Cora esteve à frente do seu tempo?


Ela sempre esteve à frente de seu tempo. Ao adentrar nos caminhos de Cora Coralina, encontrei mais do que esperava. Sendo subjugada pela família, que não a compreendia na infância, por ser doente, feia e chorona, Coralina soube criar seu mundo à parte, no fundo do quintal. Lá construiu seu lugar imaginário. Na adolescência, com pouco estudo, leu muito. Ciente de que sua poesia era diferenciada, não se curvou à métrica estipulada na época, guardou seus poemas, vindo, depois de muitos anos, encontrar no movimento modernista sua identidade poética. Traçou seu destino, contrariando sua mãe, saiu de Goiás sem se casar, em companhia de Cantídio, para viver no estado de São Paulo. Em São Paulo, durante a Revolução de 1932, se incorporou à causa, costurou chapéus dos soldados que iam para a batalha. Na crônica “Ideias e comemorações”, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, Cora fez um apelo aos governantes de que patrocinassem um curta-metragem retratando os aspectos folclóricos de cada região do país, que seria exibido nos cinemas antes de cada filme, levando assim cultura aos espectadores, uma ideia que até hoje não está em prática.

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