Por Dra. Tati Telles
Há três anos iniciei meus atendimentos médicos no Presídio de Santa Rita do Sapucaí, a convite de um detetive da Polícia Civil, Airton Chips, que na época estava trabalhando naquele local. Um trabalho 100% voluntário, com nada de retorno financeiro, e muito de retorno pessoal.
Hoje, graças a secretária municipal de saúde, Tetzi Brandão, que se empenhou em tornar o trabalho oficial, há quatro meses, este atendimento é totalmente financiado pela prefeitura. E com isto, já conseguimos parcerias maravilhosas, como levar acadêmicos da UNIVAS para fazer exames de hepatite em todos os detentos da unidade, uma coisa impossível sem a parceria com a secretaria de saúde.
Bem, o que posso dizer de um trabalho que mudou totalmente minha vida?
Primeiro, o detetive: um ano depois de iniciarmos os trabalhos juntos, começamos a namorar, ele se aposentou e hoje somos casados e felizes. E ele se tornou voluntário do presídio, levando aos presos materiais de higiene pessoal e cigarros, além de muitos conselhos de alguém que eles temiam tanto e odiavam, e hoje vêem como mais um na utopia de tirá-los dos caminhos tortuosos que a vida os levou.
Segundo, os presos: sempre imaginei que presos eram pessoas todas iguais, que cometeram crimes e que não mereceriam perdão por isso. Que engano! São pessoas onde cada um tem sua história, completamente diferentes uns dos outros, uns com chances de recuperação, vontade de viver, e outros, completamente desacreditados da vida, envoltos de tal forma na criminalidade, que nada mais vêem de bom. Estar privado de liberdade não é somente estar privado do direito de ir e vir, mas sim, de ver sua família, de agir, de pensar (pois muitos só pensam em como sobreviver dentro do cárcere, nada mais).
Terceiro, o sistema carcerário: até hoje, no sistema carcerário comum, os presos não fazem parte de nenhuma cadeia produtiva, não recebem nenhum tipo de qualificação profissional ou instrução. Será que os gestores de nosso país se esqueceram que a pena máxima é de 30 anos, e que estes indivíduos necessariamente voltarão a conviver conosco na sociedade? Será que já não passou da hora de nos preocuparmos com a ressocialização deles?
Quarto, Deus: Deus está presente onde menos se espera, e manda mensagens incríveis, basta querer ver. E neste trabalho recebi muitas. E agradeço muito a Ele, sempre…

























